sábado, 3 de julho de 2010

Amigos, amigos. Negócios à parte.

Quando F. conheceu D. eles eram colegas de classe no segundo ano colegial. Eram dois garotos como outros quaisquer. Gostavam de esportes, falavam de garotas, matavam aula juntos, brincavam de queda-de-braço, comentavam sobre carros... Eram bons amigos. Mas as circunstâncias da vida os fizeram se separar. Os anos se passaram, F. se tornou advogado e D. se transformou num empresário de sucesso.

Dez anos mais tarde, numa sexta-feira aparentemente corriqueira, quando D. saía do restaurante acompanhado por uma bela mulher, viu F. sentado numa mesa também acompanhado por um linda ruiva que não deixava nem um pouco a desejar. D. não resistiu à coincidência e foi em sua direção. F., não menos surpreso e agradado com o encontro, levantou-se da mesa e o cumprimentou. Ali mesmo conversaram por alguns minutos, relembraram fatos e trocaram contatos.

Alguns dias depois saborearam a companhia um do outro num almoço agradável e nostálgico. Passaram horas recordando a adolescência muito bem aproveitada e compartilhada. Lembraram-se da professora rechonchuda e mau-humorada que flagrou o desenho pornográfico que fizeram na carteira da sala de aula, do dia em que pularam o muro do colégio para fumar um cigarro na praça em frente à escola, da coleção de revistas em quadrinho que faziam desde a primeira infância, do jogo de vídeo-game que F. sempre ganhava... Contaram também sobre o presente. Falaram sobre negócios, sobre dinheiro, sobre família, sobre mulheres. Eram dois solteiros em busca da mulher ideal que parecia nunca chegar.

Satisfeitos com o encontro, ficaram felizes em saber que apesar dos anos que os distanciaram, ainda tinham muitas coisas em comum e que ainda se deliciavam com a presença um do outro. Desejaram e promoveram outros momentos. Passaram a freqüentar o mesmo clube, iam juntos a bares, restaurantes, sessões de cinema, teatro, concertos, boates, cafeterias e quando menos perceberam, se falavam todos os dias.

Nunca terminavam a noite separados, nos braços de alguma mulher. Os assuntos eram tão envolventes que não conseguiam focar a atenção em outra coisa que não fosse o que o outro tinha a dizer. F. gostava do jeito com que D. falava sobre os detalhes das coisas e D. se impressionava com a memória para fatos que F. tinha. Riam juntos, falavam juntos e a sensação era de que um lia os pensamentos do outro. A afinidade era impressionante.

Passaram a comemorar suas conquistas e a lamentar seus fracassos. F. ensinou a D. a experimentar bons vinhos e D. ensinou a F. a cozinhar deliciosos pratos. Muitas vezes passavam os fins de semana dedicando-se a dividir essas experiências. Alugavam um clássico do cinema e se esparramavam no sofá. Não tinham vergonha de chorar durante aquela linda cena romântica em que Rick e Ilsa se reencontram em Casablanca.

D. adorava a maneira de se expressar e a propriedade com que F. discursava. F. adorava os figurinos de D. e o jeito com que ele amava negociar tudo em sua vida: desde o preço dos sapatos que comprava até a música que ouviriam no carro. D. começou a reparar os longos cílios de F. e gostava do perfume que ele usava. F. começou a notar que D. sempre deixava dois botões da camisa abertos, mostrando sutilmente os pêlos do seu peito.

D. reparava quando F. cortava os cabelos e como suas mãos eram fortes. F. passou a perceber que quando D. tomava mais de uma taça de vinho as maçãs do seu rosto coravam, como se estive tímido. D. adorava ver o rosto de F. transpirar quando jogavam tênis e F. adorava o jeito com que D. secava os cabelos depois de sair da piscina. Aquilo tudo era muito novo para ambos, mas não parecia errado e muito menos estranho.

No aniversário de D., F. decidiu fazer-lhe uma surpresa. Mandou ao seu escritório um buquê de cravos com os dizeres: “Com amor, F.”. D. recebeu com imensa alegria e ficou realmente deslumbrado. Fez a F. uma ligação para dizer o quão agradecido e homenageado se sentia. F., que não sabia qual seria a reação de D., ficou aliviado e plenamente realizado com a recepção do presente. Aproveitou para convidá-lo a jantar num requintado restaurante francês onde havia feito reservas. D. lamentou não poder comparecer, mas prometeu recompensá-lo.

Frustrado, F. voltou para casa naquela noite que tanto desejava desfrutar da companhia de D. que comemoraria a data com a sua família. Colocou no som um jazz melancólico, tomou sozinho uma garrafa de vinho e adormeceu na rede. Tarde da noite o telefone de F. tocou, mas o barulho da chuva e o torpor do vinho o impediu de ouvir. A campainha começou a tocar insistentemente e F. despertou. Correu até a porta e sem verificar quem poderia ser, abriu imediatamente. Deparou-se com D., completamente molhado do temporal que caía. As gotas d’água escorriam pelo seu rosto e pingavam do nariz. Ficaram se olhando por alguns instantes.

F. terminou de desabotoar a camisa de D., para que ele se livrasse das roupas molhadas. D. observava F. despir-lhe e não resistiu ao desejo de abraçar-lhe, sem se importar com o frio que sentia ou com as roupas encharcadas. F. retribuiu o abraço com bastante intensidade e sentiu que transmitia a D. o calor que sentia naquele momento.

Por um breve momento afastaram-se. F. encostou a sua face na face de D., que sentiu a barba mal-feita de F. arranhar gentilmente o seu rosto. F. colocou a mão no peito de D. e deslizou-a por todo o seu tórax, sentindo os seus dedos escorregarem pelos pêlos molhados. Sem que se dessem conta, seus lábios se tocaram. Suas salivas tinham o exato gosto que imaginaram. Suas línguas gentilmente se acariciaram.

Fecharam a porta. D. tirou a camisa de F. que agora estava molhada pelo abraço. F. passou as mãos nos cabelos macios de D. que agora tocava o seu rosto. Terminaram por tirar toda a roupa e se abraçaram. Deitaram-se no sofá e se abraçaram e se beijaram por horas, até adormecerem.

Na manhã seguinte, F., que se levantou mais cedo, preparou o café da manhã. Sem que ele percebesse, D., de pé atrás da porta, o observava colocar na mesa as frutas e o mel. Quando F. pegava os talheres na gaveta, D. o abraçou pelas costas e beijou-lhe a nuca. F. acariciou os seus braços e disse: “Que esse seja o primeiro de muitos ‘bons dias’”, virou-se e beijou-lhe os lábios.

Se foram felizes para sempre, não sei. Mas aquele foi o dia mais feliz de suas vidas, até agora.

2 comentários:

Simão Pedro disse...

"Não tinham vergonha de chorar durante aquela linda cena romântica em que Rick e Ilsa se reencontram em Casablanca."
nem precisa dizer mais nada...

Guiné disse...

Queria ver esse conto em versão menos abastada! =)