sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

AUTO-AJUDA: RETROALIMENTAÇÃO DO NARCISISMO CULTURAL

O desenvolvimento da ciência, como conseqüência da exploração da natureza pelo homem, invadiu casas, intimidades e mentes. Os avanços tecnológicos exigiram uma resignificação do cotidiano e, conseqüentemente das subjetividades. A humanidade, ainda que tenha feito muitos esforços para se enquadrar aos padrões da racionalidade, não conseguiu acompanhar o progresso científico proposto pela modernidade e alicerçado no Iluminismo.

A pós-modernidade se transformou no tempo de contestação da concepção racional do homem contemporâneo. Seu discurso questiona os meios através dos quais a tecnologia atingiu tamanha evolução e questiona se realmente valeram a pena, sem, no entanto, frear seu processo de crescimento. Diante desse conflito entre preservação e desenvolvimento, os homens se situam sem referência ou direção. Querem e precisam dar espaço às emoções, respeitar seus limites físicos e psíquicos, mas, simultaneamente, necessitam tornar elásticas as suas fronteiras, para conseguirem acompanhar o ritmo das novidades e inovações tão constantes e cada vez mais exigentes. Não há espaço para a emoção e o sofrimento nesse cenário. Homens competentes são aqueles tão autônomos quanto as máquinas e que atingem as menores margens de erro. Esse tão alto padrão de exigência leva os indivíduos a buscar adaptação de forma a satisfazer esse ideal de homem.

A lógica de mercado do capitalismo, transposta aos sistemas humanos, estimula a alta competitividade entre os indivíduos. Para não sucumbirem diante dessa lógica egocêntrica do ‘cada um por si’, são criadas estratégias narcisistas que tem como objetivo tornar o homem autosuficiente na necessidade de ser amado. Porém, em alguns momentos esses sujeitos são embargados pelo seu excesso de racionalidade e obrigados a reconhecer sua fragilidade e humanidade. Mas, ainda nelas, psiquicamente, os indivíduos se vêem na busca pela perfeição. Para alcançar os objetivos dessa busca é preciso, primeiro, estabelecer modelos que são diversos no mercado da subjetividade, a partir da lógica capitalista.

A literatura de auto-ajuda fornece incontáveis possibilidades de referência para a construção das subjetividades desses sujeitos e, por isso, é tão consumida. A maioria das obras de auto-ajuda compreende que a consolidação do amor-próprio é fundamental para se conceber um sujeito estável e saudável. Para a psicologia, o que se entende popularmente como amor-próprio é similar ao conceito de autoestima e/ou de narcisismo, salvo algumas diferenças. Para essa ciência, no narcisismo cultural trata-se da busca do amor, em si mesmo, pelo homem, como tática de sobrevivência psíquica no mundo marcado pela competitividade que perpassa as relações. A auto-estima positiva é, dentre várias concepções, uma forma favorável de apreciar a si próprio que, contudo, não possui caráter competitivo ou comparativo. Trata-se da avaliação que fazemos de nós mesmos tomando nossos próprios valores como referência, ainda que esses tenham origem no berço social.

É possível perceber em algumas obras de auto-ajuda analisadas, apesar de não ser unânime o ensino da consolidação da auto-estima positiva, todas mencionam o termo ou orientam o leitor para o aprendizado da apreciação positiva de si mesmo. Os autores evidenciam a crise da subjetividade e os mal-estares da pós-modernidade, uma vez que endereçam seu discurso aos indivíduos acometidos por eles. Diante da infinitude de escolhas e de identidades dos nossos tempos, os escritores, através da sugestão, oferecem respostas prontas aos mais freqüentes questionamentos acerca da existência. Eles acalentam as almas, mas não contribuem com o processo de responsabilização desses sujeitos, que podem passar a atribuir seus êxitos e fracassos às dicas encontradas em tais manuais.

O narcisismo e o individualismo são, por vezes, reforçados através dos conteúdos dessas obras. Para atender a todo tipo de público, muitas vezes as orientações contidas nos livros, dessa categoria literária, dão margem a várias interpretações, podendo ser útil à busca de soluções para alguns ou um reforço para o cárcere cotidiano de outros. A auto-ajuda costuma ser o recurso primeiro das pessoas acometidas pelo sofrimento, mas os benefícios que podem trazer aos indivíduos não substituem as psicoterapias.

Para a psicologia é importante compreender esses fenômenos que caracterizam e, em alguns aspectos, assolam a sociedade ocidental contemporânea, uma vez que todo e qualquer indivíduo que venha requerer uma intervenção psicológica está inserido dentro dessa lógica narcisista e individualista, bem como busca recursos para desenvolver sua auto-estima positiva. Esses profissionais, contudo, não estão libertos dessa tendência social e, além de ampliar sua visão a respeito do seu objeto de estudo e compreensão, devem pensar suas estratégias intervencionistas a partir desse panorama. Dessa forma, é possível pensar na aliança entre a auto-ajuda e as técnicas psicológicas para que se alcance um processo de desenvolvimento pleno.

Um comentário:

Juliana Maria disse...

Só quem já fez terapia sabe o que você está falando. Só quem viveu sabe o que são os sentimentos e as necessidades fisiológicas... Por isto quem escolheu ser feliz será, com miopia, tetraplégico, ou no seu último dia de vida (mesmo que seja um condenado à morte e saudável como um touro). A felicidade que os autores de auto-ajuda tanto clamam está numa decisão, que nem sei se é consciente e cheia de informações. É uma escolha de quem já venceu o desafio de estar e permanecer vivo.